PRÓLOGO
Na sarjeta.
Incrível. Ela, que até recentemente, vivera nos braços indulgentes e protetores
do luxo.
Na sarjeta.
Entre papéis amassados e latas vazias, a chuva escorrendo para a vala a poucos passos, na rua mal-iluminada.
Ela nem sequer tentava se levantar. O quadril doía e o tornozelo torcido lhe
dizia que doeria ainda mais, caso se levantasse e apoiasse seu peso sobre ele. Por isso,
não se levantaria. Ficaria ali deitada e deixaria que o mundo, um mundo que provara
ser difícil e penoso na última semana, continuasse a girar sem ela. Ele não a queria e,
no momento, ela tampouco o queria!
Como Jordan riria se a visse agora. Sozinha, inútil, completa-mente vencida
cmocionalmente, e deitada na sarjeta, sob a chuva impiedosa.
Não que Jordan fosse um homem cruel, mas sua predição de que ela fracassaria
fora completamente correta. Até mesmo a mala se abrira quando a deixara cair. Todas
as lindas roupas que Jordan se cansara de dizer serem caras demais e portanto um
desperdício, jaziam sobre a calçada, molhadas e sujas de lama.
Ela começou a rir, suavemente a princípio e depois chegando à beira do
histerismo.
— Era só isso que me faltava! Uma droga de mulher histérica! — soou uma voz
mais do que irritada. — Levante-se, vamos, antes que apareça outro carro e termine o
que eu comecei!
Era como se tivessem jogado um balde de água gelada em seu rosto. Parou de rir
imediatamente e franziu o cenho.
Em seu pesar, acabara se esquecendo do carro que dobrara a esquina havia
alguns segundos, e que fora a razão de seu recuo e consequente queda. Era o que
faltava para que ela acabasse de perder completamente o equilíbrio.
O carro se detivera a pouca distância com seus faróis cegando-a, como se
fossem olhos vermelhos dentro da escuridão.
Ao menos o motorista brecara. Embora não houvesse necessidade de tanta falta
de educação.
— Se eu pudesse me levantar, já o teria feito — ela protestou. — Mas parece
que o senhor me incapacitou...
— Meu carro não a tocou — o homem se defendeu. — A senhora desceu da
calçada sem olhar e, quando percebeu meu carro, escorregou, tentando evitá-lo.
Não deixava de ser verdade, mas, assim mesmo, ele não precisava tratá-la com
tanta arrogância.
— Seu carro a feriu, sim, qualquer um pode ver — uma voz acusou o motorista.
Incrível. Alguns segundos atrás aquela pequena rua de Londres estava
completamente deserta. Agora, já se formava, uma multidão ao seu redor para
testemunhar a cena.
— Como o senhor não estava no local no momento do acidente, não creio que o
que tenha a dizer seja relevante — o motorista afirmou.
Heathcliff. Era nele que aquele homem a fazia pensar. Moreno e sombrio, com
cabelos compridos e ajeitados, embora fosse difícil garantir, com a chuva lhe
escorrendo pelo rosto.
Seria possível que estivesse delirando? O que interessava em quem ele a fazia
pensar? Era arrogante e condescendente e ela estava saturada desses aspectos da
personalidade humana.
Tentou mover-se, a dor explodindo em seu tornozelo e em seu quadril.
— Não posso me levantar — ela comentou,assustada.
— Deve ter quebrado algum osso — soou a mesma voz acusadora. — Não se
mova, moça — o homem a aconselhou. — Espere até a policia chegar.
— Polícia! — zombou o motorista. — Não há necessidade de envolver a policia
num caso como este.
— Claro que há. — A testemunha parecia escandalizada, provavelmente em notar
que sua noite de entretenimento gratuito poderia estar chegando ao fim. — O senhor
derrubou esta jovem senhora.
— Não derrubei!
— Sim, derrubou!
— Não...
— Oh, pelo amor de Deus! — a "jovem senhora" os interrompeu, lutando para se
sentar, já que nenhum dos dois se preocupara em ajudá-la. — Como o senhor tão
apropriadamente salientou, — ela se dirigiu ao motorista —, se eu não sair logo daqui,
acabarei sendo realmente atropelada e morta por outro carro!
— Desculpe-me — ele falou com impaciência, embora a levantasse com cuidado.
Como ela gemesse ao movimento, informou à multidão: — Cuidarei do bem-estar da
senhora.
— Minhas roupas! — ela avisou, antes que ele fechasse a porta do velho Jaguar.
— Diabo! — o estranho praguejou, ao olhar para a mala aberta e as roupas
espalhadas no chão. Fechando a porta com mal controlada irritação, voltou-se para
apanhá-las.
Ela o observou enquanto recolhia as peças, certa de que não poderia recuperar
os itens mais finos, após um manuseio tão rude.
Para seu alívio, a multidão já havia se dispersado, inclusive o porta-voz, que
felizmente percebera que ali não mais teria oportunidade de se divertir.
Quando finalmente o porta-malas foi aberto e a mala guardada, ela percebeu
que se encontrava completamente a sós com um homem que não demonstrara um
mínimo de interesse por sua pessoa. Aliás, bem ao contrário. No entanto, não poderia
descer do carro e se afastar, mesmo que quisesse, tanto lhe doíam o quadril e o
tornozelo.
Se o homem fosse, por acaso, um sequestrador, ela estaria em maus lençóis,
pois duvidava que alguém pagasse um resgate para salvá-la. Jordan certamente não o
faria.
Se estava infeliz e frustrada, na sarjeta, havia alguns minutos, agora poderia
estar em situação muito pior, ou seja, em perigo!
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